Nhô Quim Drummond

Nhô Quim Drummond
Historiador

segunda-feira, 12 de março de 2018

O Teatro em Sete Lagoas – Dois


Jornal Mensagem - coluna Piquete - 14/01/1959



Augusto Fernal deixara, em nossa terra, um traço marcante de sua personalidade artística. O seu “Fantasma Branco” provocou muitas noites de insônia e permaneceu, por longos meses, como assunto obrigatório de todas as rodas.

Velhos e moços comentavam o sucesso de sua temporada e não faltou quem se animasse a enfrentar a difícil arte de Thalia, (Talia; "a alegre", era uma das nove musas da mitologia grega, filhas de Zeus e Mnemósine, filha de Oceano e Tétis. Era a musa da comédia. Era representada com uma máscara cômica e por vezes com uma coroa de hera. Tália a festiva).

Organizou-se um grupo de comediantes, tendo à frente os jovens José Belisário Viana, João Fernandino Junior e Fernando Pinto de Azevedo. A estes seguiram outros mais e fundaram o Grupo Dramático “João Caetano”, em homenagem ao maior ator nacional daquele tempo.

Simultaneamente com os ensaios prolongados de autênticos dramalhões, então muito em moda, cuidava o Grupo de amealhar recursos que lhe permitissem a construção de nosso teatro.

A fama do de Sabará corria mundo e nós não poderíamos vender nossa farinha por menos. Roma não foi feita em um dia.

É muito conhecido o episódio da libertação de uma escrava, torturada por seu mercador, mediante cotização popular, encabeçada pelo Dr. João Antônio de Avelar. Tão generosas foram as contribuições que, com o saldo apurado, os seus promotores resolveram adquirir o velho rancho de tropas, pouso forçado dos que então faziam o ignomioso comercio.

O acontecimento marcou época e com ele o nosso povo escrevia uma das poucas páginas que ilustram nossa história. Para o local do rancho voltaram as atenções dos moços que capitaneavam o “João Caetano” e o terreno foi cedido ao Grupo, graciosamente, para a execução do plano que havia arquitetado.

Apenas uma simples ressalva, fizeram os autores da concessão: que se denominasse “Redenção” o teatro que se propunha a construir. Assim ficaria perpetuada na memória de nossa gente, a nobreza do gesto daqueles setelagoanos que tiveram em tão alta conta a dignidade do ser humano.

Daí a origem do Teatro Redenção hoje (1959), transformado em sede do Governo Municipal. Construído por iniciativa do Grupo Dramático “João Caetano”, foi por este cedido à municipalidade, com a condição de ser o referido Grupo indenizado das despesas que fizera. Mas esta indenização jamais se fez, segundo afirmou de uma feita, o sr. Fernando Pinto de Azevedo, mais tarde confirmado pelo sr. José Belisário Viana, já residente em Pedro Leopoldo. ̶  Vendemos como compramos, esperamos que a história ratifique ou retifique este acontecimento.

Voltemos à evolução do nosso teatro, que é o que mais nos interessa, no momento. Em 1908 integravam o Grupo “João Caetano”, além de seus fundadores, Fernando Pinto e Fernandino Junior, os irmãos deste, Antônio e Raimundo Fernandino, João Antônio de Avelar Andrade e sua irmã Maria das Dores (Dorica), Antônio Augusto Camões, Galdino Moura, Sergio Lages e sua irmã Nhasica Lages. A estes elementos aliavam-se, nos períodos de férias escolares, os estudantes João Alcides de Avelar e João Batista Campos.

De preferência o Grupo levava à cena peças do Dr. Avelar, como “Os Homônimos”, “O Lobisomem”, “Acabamento de Capina” e outras de acentuado sabor popular. Fernandino Junior, cioso da direção que imprimia a seu Grupo não admitia a introdução de estranhos, pois nós mesmos fomos “barrados” quando tentamos escalar a sua intransponível muralha. Nós havíamos regressado do Estado do Espirito Santo, em 1902. Éramos, portanto, estranhos àquele meio que pontificava com sua arte.

Conformados com o insucesso de nossa investida, os nossos pendores pela arte não arrefeceram. Com surpresa para a pequenina cidade surgiu o Grupo Dramático “Melanciense”, encabeçado por Américo Esteves Rodrigues e seus filhos, Januário e Ricardo. Engrossavam o elenco os irmãos Sulfumiro e Alzira de Freitas, a srta. Raimunda Franco e Ataíde Murce. A este Grupo nos filiamos. Os ensaios eram feitos em residências particulares. O Grupo “João Caetano” relutava em nos ceder o Teatro. O imóvel era dele, diziam seus diretores. E só depois de muita luta, graças à intervenção diplomática do Sr. José de Andrade (Zé Lodô), conseguimos estabelecer com nossos ferrenhos rivais um “modus vivendis”. Penetrávamos afinal, no Teatro que não era nosso...

O resto...depois contaremos. 

Nhô Quim Drummond


2 comentários:

  1. Adorei este resgate histórico. E Nho Quim, escreveu mais?

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    1. Oi chará. Sim tenho uma pasta com copias. Vou publicar aos poucos

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O Teatro em Sete Lagoas IV - Audio